quarta-feira, 11 de maio de 2016

O castigo sobre bons e maus

Um dos mistérios que atinge o homem moderno, mesmo tendo a fé católica, é o sofrimento dos bons. Quando se fala em círculos católicos tradicionais sobre um castigo iminente de Deus para a humanidade pecadora, como no Dilúvio, muitos são céticos e afirmam que algo como isso seria injusto. A resposta a estas perguntas foi dada por Santo Agostinho em sua obra “Cidade de Deus”. Convém reproduzir aqui o capítulo IX do primeiro livro, que resume brevemente uma argumentação luminosa sobre isso aqui.


Causas de punições que afligem igualmente bons e maus

1. Que padeceram os cristãos naquela  catástrofe (as invasões bárbaras) que não lhe serviram de proveito, se não considerarmos com os olhos da fé? Em primeiro lugar, pensar com humildade nos pecados que Deus, em sua indignação, encheu o mundo com tais grandes calamidades. Embora seja verdade que se verão longe dos criminosos, dos infames, dos ímpios,  não vão acreditar isentos de faltas a ponto de julgar-se indigno de sofrer algum mal temporário para sua causa. Faço exceção de que todo mundo, por mais impecável que seja a sua vida, concede algo para a concupiscência carnal, embora sem a crueldade do crime ou o abismo da infâmia ou a perversão da impiedade; mas se a certos pecados, talvez raramente cometidos, ou, talvez, tanto mais frequente quanto mais leves. Bem, exceto isso, a quem  encontramos facilmente como se trate como se deve a estes perversos, por cuja abominável soberba, lascívia e ambição, por suas injustiças e abominável sacrilégio, Deus tem esmagado o mundo, como já tinha anunciado em várias ameaças? E quem vive entre essas pessoas como deveriam viver? Porque normalmente se dissimulam culpavelmente com eles, não ensinando ou admoestando nem mesmo repreendendo ou corrigindo, seja porque nos custa, seja porque temos vergonha de falar na cara, ou porque queremos evitar inimizades que podem trazer impedimentos e até danos aos bens temporais, nossa ganância ainda pretende alcançar o que nossa fraqueza teme perder.

Assim, o justo é infeliz, é certo, com vida dos maus, e como eles, não venham a cair na condenação que os espera depois desta vida; mas, em troca, como são indulgentes com os seus pecados detestáveis, ainda que tenham medo, caem em seus próprios pecados, rapidamente é verdade, e de forma venial, com razão, estão presos no mesmo laço temporal, ainda que estejam longe de serem punidos por toda a eternidade. Vale a pena os bons sentirem as amarguras desta vida quando eles se veem castigados por Deus com os malvados, eles que, por não privar-se do seu bem-estar, não causaram amarguras nos pecadores.


2. Pode acontecer que alguém se mostre vagaroso em repreender e corrigir os malfeitores por estar procurando a oportunidade ideal ou têm medo de que se tornem pior por isso, ou coloquem obstáculos para a formação moral e religiosa de alguns mais débeis, com pressões para que se afastem da fé. Isso não parece fruto de qualquer  má inclinação, mas sim o fruto da caridade. Sim, são culpados aqueles que vivem de maneira diferente e abominam o comportamento dos pecadores, mas fecham os olhos aos pecados dos outros, quando deveriam desencorajar ou repreender. Temem suas reações, talvez prejudiciais nos mesmos bens que os justo podem desfrutar legítima e honestamente, mas que o fazem com maior avidez  que o  conveniente para quem é peregrino neste mundo e que levanta a bandeira  da esperança em uma pátria celeste.

E, naturalmente, não me refiro apenas estes mais negligentes, quer dizer, aqueles que levam, por exemplo, vínculo matrimonial, tendo ou procurando ter filhos, com casas bonitas e criados em abundância ( como aqueles a quem se dirige o Apóstolo nas Igrejas para ensinar-lhes e recordar-lhes como devem viver as esposas com seus maridos, os maridos com suas esposas, os filhos com seus pais, os pais com seus filhos, os servos com seus senhores e os senhores com seus servos). Todos estes, de muito bom grado, adquire-se bens da terra em abundância, e com muito desagrado os perdem. Esta é a causa por que não se atrevem a ofender os humanos cuja vida, cheia de podridão e de crimes lhes desgosta.

Não me refiro apenas a estes, não. Se trata inclusive daquelas pessoas que se comprometeram com um tipo mais elevado de vida, livre das amarras do vínculo matrimonial, de mesa moderada e vestido simples. Estes, eu digo, se abstêm ordinariamente de repreender o comportamento dos ímpios, temendo ataques disfarçados, vinganças ou comprometimento de sua reputação ou segurança pessoal. Certamente eles não têm tanto medo, ao ponto de cometer ações semelhantes, cedendo a ameaças ou qualquer de suas perversidades. No entanto, evitam repreender  estes ultrajes que não cometem em cumplicidade com eles, de modo a ser que alguns mudaram de comportamento com a repreensão. Eles têm medo, se eles falharem em sua tentativa, pode por em perigo a reputação e a vida. E não porque eles creiam indispensáveis ​​para o serviço de ensinar aos demais, não. É um pouco o efeito daquela debilidade mórbida em que cai a língua e os juízos humanos quando se satisfazem  em suas adulações e temem a opinião pública, os tormentos da carne ou morte. Consequências são estas da escravidão às más inclinações, e não do dever da caridade.

3. Então, a meu modo de ver, não é desprezível à razão o porquê passam penalidades os maus e os bons juntamente, quando a Deus parece-lhe bom castigar, mesmo com penas temporais a corrompida conduta dos homens. Eles sofrem juntos não porque levam juntamente uma vida depravada, mas porque juntos amam a vida presente. Não com a mesma intensidade, mas em conjunto. E os bons deveriam desprezar para que os outros, emendados com a repreensão, alcançassem a vida eterna. E se seus inimigos recusar-se a acompanha-lo em alcançar a vida eterna, devem ser suportados e amados, porque enquanto você estiver vivendo, você nunca saberá se eles vão mudar a sua vontade de se tornar melhores.

Nesta área eles já não são semelhantes, mas muito mais grave a responsabilidade  daqueles de quem fala o profeta:  Perecerá  este por sua culpa, mas do seu sangue eu pedirei contas ao sentinela. Com este fim estão postos precisamente os sentinelas, quer dizer, os responsáveis ​​dos povos nas igrejas, para não serem negligentes em repreender os pecados. Mas não se creia inteiramente sem culpa quem, sem ser prelado, está ligado a outras pessoas através das circunstâncias inevitáveis ​​da vida e negligencia a admoestar ou corrigir muitas das coisas que  sabem que são repreensíveis neles com medo de vinganças. Procura por bens que se pode desfrutar nesta vida legitimamente,  mas, coloca-se neles uma alegria além da legítima.

Tem, ademais, uma outra boa razão para sofrer males temporários. É o mesmo que teve Jó: submeter o homem a prova do seu espírito e comprovar que  profundidade tem a sua postura religiosa e quanto amor desinteressado tem a Deus.


Fonte: Panorama Católico Internacional - El Castigo sobre Buenos y Malvados

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